Folhas e Paisagens

por Wanderley Wasconcelos

A linguagem que combina sons, ritmos e significados, é leitura que leva ao decifrar, interpretar e sentir. Esses atos são, ao mesmo tempo, prazer e tarefa que o leitor de poesia encontra a sua frente. E nem todos os leitores estão dispostos a esse exercício no mundo em que vivemos. Atualmente, as informações já chegam decodificadas, prontas para a ingestão daqueles que juram que pensam, mas que detestam pensar quando têm que comungar esse assunto de raciocínio com as páginas de um livro.

Essa falta do hábito de leitura é quase generalizada e começa onde deveria ser incentivada: na escola. Ali, leitura é  um ato quase obsoleto. Mesmo assim, há os autores que insistem em oferecer seus textos, que nada mais são do que a tradução da nossa cultura através de romances, contos, poemas, cantos e cantigas populares que ainda não se perderam na esquina do tempo.

Em 2010, o cantor e compositor Divino Arbués abriu suas gavetas, ou se preferirem, a janela do seu computador, e reuniu em livro, 150 páginas a que deu o nome de “Folhas e Paisagens”, editado sob os auspícios da Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso, cujo lançamento e divulgação é seu empenho atual.

Esse livro, que ele dedica aos mestres da cultura popular, tem apresentação assinada pelo cantor Almir Sater e é  ricamente ilustrado, desde sua capa (a partir de uma foto do autor) pelo artista plástico Brás Rubson. Tem ainda ilustrações internas assinadas por Milton Mendes Júnior e Mario José de Angelis. A foto do escritor, na orelha do livro, é do premiado fotógrafo Mayke Toscano.

Antes de falarmos sobre o autor, nos declinamos inicialmente a sua obra, resultante de elementos colhidos em diferentes gêneros da cultura popular do Araguaia e algures, já que também  é músico.

Sua discografia incluiu o compacto duplo Quarto Crescente, que deu nome a uma praia no Araguaia (Aragarças), seguido dos discos Dunas, Encontro das Águas, dos CDs Romance de Rio e Serra, 312 Tons, Cantos do Vale, Rebojando e Afluente. Em todos os seus discos estão presentes a matiz dos rios de sua terra e, neste último, Afluente, a canção “Cor da Noite” que eu considero, afeito cá  as minhas ‘ignoranças’, a melhor de suas canções.

Na bibliografia de Arbués, além de sua colaboração esparsa em jornais e revistas, vem em primeira mão seu romance Rio e Serra (1997), que ainda precisa ser mais estudado, avaliado em seus pontos essenciais, nos esforços de seu autor que se deu ao trabalho de trazer ao alcance popular o tecido conjuntivo da nossa existência ribeirinha. Mais adiante, em 2007, quando esteve secretário de Cultura do município, ele reuniu em outro livro um compêndio da Cultura Popular de Barra do Garças, onde, com pesquisadores, fez resgates valiosos para a história da sociedade do Vale do Araguaia.

Sobre sua arte de versejar, de ser poeta, o compositor Almir Sater diz, na breve apresentação que fez de ‘Folhas e Paisagens, que começou a conhecer o Araguaia quando sua irmã Gisele Sater (Pingo) “falou-me de uma moçada que fazia um som muito legal nas areias de suas praias.[…] Arbués é daquelas pessoas que trazem no jeito, na fala e nos temas, as coisas de sua terra. […]observando o esmero de suas letras e a qualidade literária, sempre falando do mundo, das coisas do mundo, mas nunca deixando de lado a expressão do regionalismo, das belezas do nosso Mato Grosso e Centro-Oeste. Por isso tenho certeza de que, musicalizada ou não, sua poesia é  sempre verdadeira e, sendo verdadeira, será rica de brasilidade”.

Arbués pertence a uma geração que lia quando criança. Lia enciclopédias, gibis do ranzinza Tio Patinhas e sua turma, crônicas da revista Manchete, fotonovelas (de suas irmãs), histórias infantis e outras leituras que fossem acessíveis. Nessa fase, diz ele “descobri os livros de Monteiro Lobato, as obras místicas de Gibran, do romântico José de Alencar, de Jorge Amado, Fernando Sabino, Saint Exupery, Richard Bach… também veio a me encantar a poesia contida na Música Popular Brasileira, em versos de Manuel Bandeira, Ferreira Gullar, Afonso Romano de Santana, Florbela Espanca, Cecília Meireles, Fernando Pessoa e tantos outros grandes poetas”. Foi com essa bagagem que Arbués e seu Grupo Araguaia venceram muitos festivais da canção da região Centro-Oeste.

Mais tarde, uma conseqüente convicção de que sua existência estava ligada à poesia, pode ser notada em seu primeiro livro, o “Rio e Serra”, onde o dualismo se funde entre ecologia e filosofia.

Sobre a obra atual, ele comenta: “em Folhas e Paisagens, ao contrário do Rio e Serra, que era romance, minha intenção foi a de fazer um livro com mais espírito de humor, tanto livre quanto crítico, cítrico, sem deixar de lado a arte, com jogos de palavras em textos mais curtos e abordagens de temas atuais, em sua maioria.

No atual livro, sobre o fazer arte, Arbués homenageia e parafraseia o soneto Ouvir Estrelas, de Bilac, na peça “Meu céu é cheio/ de entrelinhas/ ora, direi/ eu tento lê-las!”. Sobre poesia, ele escreve “O poeta adulto/ mantém como moda/ chamar as palavras/ pra brincar de roda”. Sobre ecologia, “Na ponta do meio ambiente/ pela borda, pela beira/ avança na mão da gente/ trator humano de esteira”. Sobre a globalização, “Singrai o mar da internet/ maravilhoso pesqueiro/  mas saibas pisar dois mundos/ lembrai que em vosso bairro/ há motorista barbeiro”. Sobre a banalização, “Por dentro da mídia/ há muito Brasil/ abaixo da média”. O autor não deixa também de visitar detalhes da história regional em algumas peças, como “Meu livro de papel/ lembra o barquinho/ que eu soltava na enxurrada/ indo pro nada… num desvario/ que nada, nada/ que nada, nada/ ia o danado pra alto mar/ e me deixava a ver navios”. Ele conclui dizendo que quis fazer um livro que possa ser lido em seu todo ou em parte, uma página a cada dia, ou mesmo, cujas peças possam ser usadas e interpretadas separadamente.

Folhas e Paisagens é dividido em três janelas. A primeira é  formada de pequenos poemas estilo haicai. Na segunda parte está  ‘Rio e Serra’, de poemas mais longos, e a última parte, as ‘Dunas’, traz letras de algumas canções já passadas ao crivo de seus discos que são referências do cancioneiro regional.

Os temas que dão forma a sua obra surgem de sua vivência, da observação do cotidiano, dos atos, fatos e lugares. A composição regional, diz ele, possibilita frisar aspectos históricos, costumes, folclores e  crenças, figuras típicas, dicções regionais, aspectos geográficos, sociais, cronológicos, enfim, um universo de dados que podem, inclusive, subsidiar estudos, pesquisas ou contribuir para o desenvolvimento da região com a preservação de sua identidade social e cultural.

Divino Arbués reconhece que seu livro e o de outros autores da região padecem pela falta de divulgação cultural e demandará  tempo pra serem melhores entendidos, interpretados e valorizados. “Porém, vale a consciência de fazermos o que pensamos ser mais correto, priorizando o cultural ante o comercial”.

O seu fazer cultural tem sido o trabalho de sua vida de esforço e idealismo. Em muitos dos eventos culturais de Mato Grosso está Divino Arbués. Com o escritor Ricardo Guilherme Dick, ele conviveu no Conselho de Cultura do Estado, bem como, com outros escritores, poetas, músicos, pintores, a maioria deles à margem do processo de divulgação midiática da cultura, mas que fazem de seu trabalho um legado oculto que poderá ser valorizado pela posteridade.

Para finalizar, recorro ao que disse o cartunista Brás Rubson sobre Folhas e Paisagens. “A partir de sua profunda paixão pela língua portuguesa e cultura brasileira, nos presenteia com essa coletânea de poesias primorosas e, de brinde, ainda nos traz as belas letras de músicas que o consagram. Arbués é um artista atento ao seu tempo. Observa com perspicácia o que ocorre a sua volta. Pelo seu filtro de fazer artístico, separa como ninguém o joio do trigo. Suas poesias deixam a certeza que a brisa leve do Araguaia ainda propaga a energia da boa arte”.

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